sábado, 3 de dezembro de 2016

Carta aberta ao Presidente do Sport Club Internacional.

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honra_2016
Porto Alegre, 3 de dezembro de 2016.
Prezado Vitorio, não utilizarei aqui nesta carta termos pejorativos para levar adiante uma opinião que estampa o peito de uma nação colorada. Para começar a conversa, o clube não é seu. Sim, o Inter é o Clube do Povo, de todas as suas histórias, dos ídolos, de Fernandão, de Figueroa, de Falcão, de Dadá Maravilha, da antiga Coréia que continua gritando “gol” no espaço invisível da historia do estádio. Estádio nosso que foi construído tijolo a tijolo, pelas mãos de milhares. E pelos corações de todos. E é desse coração que queremos falar. O coração colorado está sangrando. Sangrando pelo que o senhor e a diretoria do Internacional estão fazendo com a imagem do clube. Essa imagem não foi construída com dinheiro, ela foi construída com paixão. E isso não se compra em nenhuma esquina. Seja ela da vida, seja ela de escanteio. De um lado, vejo a empáfia de poucos. De outro, a indignação completa de milhões. Não desejamos aqui julgar ninguém, mas é preciso ser firme na moral. E na cobrança. Não falaremos das cobranças por tantos tropeços feitos neste ano desastroso de 2016. Poderíamos listar muitos deles, mas talvez essa carta virasse um livro. E não pretendemos escrever porque a história do meu clube já é um livro aberto. E nesse livro não tem espaço para frases tortas. E palavras que não combinam com três letras: S C I. A dor e a saudade que abatem tantas pessoas também chega a todos nós, colorados, pois fazemos parte da mesma família, chamada humanidade. E essa humanidade se dividiu em cores pelas terras e pelos continentes. As nossas, vermelho e branco, desde sempre são eternas. O clube começou em 1909, mas sabemos que ele vem de um tempo que não existe marcação em relógio algum e nunca terminará. E essa mancha de um ano como esse não vai constar como carimbo em qualquer lugar porque os colorados que rasgam esse Brasil de Norte a Sul e de Leste a Oeste dizem: a sua voz não nos representa. A sua voz pode falar em alto e bom som em qualquer microfone, mas não toca qualquer um de nós. Nós, hoje, somos Chapecoense. Nós, hoje, não aceitamos meias palavras. Nós, hoje, dizemos basta. E que essa mensagem ecoe em todas as pessoas do nosso País, mostrando que a dor dessa tragédia machuca e atinge a todos. Hoje, o meu Inter não é vermelho e branco. Hoje, ele é verde. Ganhamos do Barcelona em uma final de mundial, mas a verdadeira grandeza do futebol foi nos ensinada por um time adversário que estava em uma final e decidiu entregar a taça de campeão a outro. Sim, viva o Atlético Nacional de Medelín. Aprendemos com um povo que usou branco, em um momento que estaria gritando por seu time, mas mudou o canto em homenagem ao seu adversário: “Que escutem, em todo o Continente, sempre recordaremos, campeã a Chapecoense”. Ah, Presidente, que oportunidade para mostrar a grandeza do Inter. E a grandeza pode sim passar pela Série B. Em momentos de brincadeira, como todas as torcidas fazem, nas suas provocações rotineiras, muito se falou: “time grande não cai”. Mas isso faz parte do folclore, todos sabemos. Faz parte da brincadeira com o amigo que é do time contrário. Assim como ele tem motivos para também usar elementos para dar a sua risada aberta falando de um dia em que perdemos para o Mazembe. Só que isso faz parte do futebol. É do jogo. Sim, time grande também cai. Muitos já caíram. E voltaram. E não deixaram de ser grandes porque caíram. E o jogo traz as suas histórias que marcam a vida de todos os clubes. Só que uma marca não vai passar pela vida do Inter. Essa que o senhor e a diretoria, em total desalinho, conseguiram promover. Já ganhei Gre-Nal, já perdi Gre-Nal. Já vi o Inter ser campeão da Libertadores, em uma final para testar cardíacos. Já vi o temível Barcelona sentir o peso da nossa camisa em 1×0 histórico. Já vi tanto. E sei que muitos já viram muito mais do que eu. Mas tenho o compromisso, neste instante, em trazer essa mensagem em meu nome porque não posso falar em nome de outras pessoas, mas tenho a absoluta certeza de que muitos pensam da mesma forma. Esse é o momento do Inter ser realmente grande. Já ganhamos tudo. Somos o Campeão de Tudo. Mas falta uma coisa nesse exato segundo, aos 44 do segundo tempo. O senhor está no gabinete, fechado, com a caneta na mão. Dentro do estádio, um escanteio. Um torcedor colorado irá cobrar esse escanteio. Dentro da área, somos milhões, prontos para a cabeçada que vai estufar a rede. E nesse cruzamento, no céu, o eterno Capitão Fernandão nos abençoa. Escuta-se apenas o silêncio. E o silêncio diz muito. Ele apenas fala: “Querida, Chapecoense. Nós amamos você. Nós compartilhamos da sua dor. Nós choramos pela mesma história. Queridos clubes de todo o Brasil, não somos a direção do Inter, nós somos milhões. E a voz deles está falando porque nós estamos engasgados. A palavra não sai. Assim como não sai para muitos neste momento frágil da vida. Queridos familiares, amigos e todos que hoje vestem a mesma cor, aceitem nosso abraço fraternal de “meus pêsames”. Sim, nós, como o mundo todo, “sentimos muitos”. E isso independe de jogarmos a Série A, a Série B ou a Série Z. Isso não importa mais. Se todos jogarem, jogaremos. Se todos não jogarem, não jogaremos. Se for fora do campo, não aceitaremos. Podem alguns levantar as suas mãos em pequeno número questionando uma inscrição indevida por alguns dias de um jogador de um time adversário. Uma coisa pode definir o tribunal da vida. Outra é o tribunal da moral. Se o Inter cair, não foi por um jogador inscrito indevidamente alguns dias a mais ou a menos. Sejamos verdadeiros. Foram erros em cima de erros. E assumamos uma Série B, que será digna. Se tiver a partida e se todos os resultados combinarem e não cairmos, fará parte do processo final. Neste instante, a bola de escanteio vai chegando na grande área. São milhões de colorados. E num gesto de grandeza, tudo para, o tempo congela, o passado e o futuro se encontram. No céu, ao lado de Fernandão, surgem as imagens de todos que partiram para o outro lado da vida. As lágrimas caem em rostos petrificados. O relógio marca o final do segundo tempo. Mas o jogo não termina. Porque a vida continua. Ela sempre vai continuar.
Fábio Craidy Bührer, torcedor colorado

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